ESSAS ESTRANHAS LEMBRANÇAS

Uma hora ou outra era hora de se despedir. Cada um tinha que seguir seu caminho. Abraço bem apertado, beijo com carinho, “não queria ir, mas é a vida”, “se cuida”. Alguns passos depois, olhava para trás para te ver um pouco mais. Você também estava olhando. Nossos olhos brilhavam. Numa manhã qualquer, você no quarto, eu na cozinha. Você gritava meu nome sem parar. A gente no sofá, abraçado, como se não tivesse mais nada ao nosso redor.

Agora, ficamos na lembrança. Você seguiu o seu caminho. Bateu a porta. E fiquei olhando para trás, mas não encontrei seu olhar. Não escuto mais você me chamando. Sobrou um vazio.

Se pudesse apagaria tudo. Pegaria esse papel, queimaria e me esqueceria de tudo. Na falta de lembranças, nada sobra. Mas pra que apagar aqueles sorrisos? Pra que apagar seu olhar? Uma hora, as lembranças vão ser acompanhadas de sorrisos. Os soluços vão se espaçando e passam. A vida segue o caminho.

Anúncios

Deixe um comentário

Filed under Uncategorized

POR HORA, GERÚNDIO

Dia desses, me peguei numa encruzilhada. Era uma daquelas típicas manhãs de trabalho, quando o atraso é inevitável. Antes de descer as escadas e abrir a porta pra vida, dei uma passada no banheiro para passar perfume. Quando dei por mim, tinha decidindo não usar aquele perfume que você gosta. Ele está no fim e, uma parte de mim, quer usar as últimas gotas com você. Agradinhos do cotidiano. Não que aquele resto de água seja nosso último suspiro. O que quero é alongar isso que nem sei direito o que é e nem onde irá parar. Sobre o nosso destino: prefiro não prever. Só sei que as músicas de desamor não estão mais fazendo sentido. É estranho. Parece que estou em um corredor que, no fim, me leva a outro corredor e assim segue sucessivamente. Um gerúndio. A mesma história de sempre, mas talvez diferente. Quem sabe estou fugindo das histórias que já conheço? Um caminho diferente para as mesmas paisagens. Por ora, está rotineiro. Acho que o melhor mesmo é não usar mais aquele perfume.

Deixe um comentário

Filed under Uncategorized

AFINAL, É DOMINGO

Billie Holiday soa a manhãs de domingo. Aquela rouquidão derramada pela sala e Billie se espalhando por todos os cantos da casa. As janelas escancaradas, o vento esvoaçando as cortinas, e eles lá na cozinha mexendo algo no fogão. Qual será o almoço de domingo? Será Billie regada à vinho? Feijoada à  Billie? Macarronada à Billie?

Com o tempo, acostumei que Billie dói, mas aconchega. É aquele abraço de pai, um porto-seguro em meio ao mundo caindo, que aperta, mas com medo de machucar, não pesa a mão. A vida gritando lá fora, e Billie cantando: “I’m gonna love you like nobody’s loved you”

Billie é aquela manha matinal, que acorda preguiçosa e se espreguiça na cama. A vida clama pra seguir em frente, mas a gente pede mas cinco minutinhos. Afinal, é domingo.

2 comentários

Filed under Uncategorized

VOCÊ PRECISA ME ENSINAR A ABRAÇAR

Há entre nós um pequeno sinal. Um traço tão fino e leve que, para romper, basta um sopro. E nós? Ainda não temos a força necessária para romper nada. Nem esse silêncio barulhento das nossas conversas. Quando os olhares se encontram, se escapam.

Resta esse gostoso gosto do princípio do pulo. Aquele exato instante antes do primeiro beijo, aquele frio de encontrar, aquele gelado na espinha assim que as mãos se encontram. Somos um abismo delicioso de se apreciar.

Talvez nosso problema esteja no abraço. Não sabemos nos encontrar. Fugimos de nós. Somos incapazes de estar tão perto. Precisamos nos aprender, nos prender. E ir por esse nosso vão que guarda jantares,  cinema, tardes, viagens, vinhos…

Deixe um comentário

Filed under Uncategorized

NOSSOS DETALHES

Naquela noite, tomei o copo de sua mão à toa. Não queria um gole, nem fazer você parar de beber. Queria sua reação, sua raiva ou, talvez, aquela sua simples devoção aos meus pedidos. Queria você exatamente como é. Esse nariz meio torto, esse cabelo às vezes grande demais, esse jeito de caminhar com pressa. Todos seus detalhes em ação.

Certa vez, vi você conversando com alguém. Estávamos distantes, você nem me notou. E nem era para notar. Fui seguindo seus movimentos. Os lábios, o olhar, as mãos. Você sendo exatamente você. Guardo até hoje aquela cena.

Quando o copo caiu e baixamos para recolher os cacos, seu olhar me reprimia. Eu por dentro, ria. Embora aquele fosse o último gole de vinho que havia no apartamento, você não desatinou. Disse, com aquele seu sorrisinho de canto de boca matador: “bocó”.

Deixe um comentário

Filed under Uncategorized

OS LOUCOS E OS NORMAIS

Não sei exatamente se é a idade ou o que chamamos de maturidade, mas com o tempo ficamos medrosos. Em vez de nos jogarmos, ficamos na beira, olhando tudo o que poderia ter sido e não foi. A vida vira uma covardia. Aos que dão o salto e se permitem cair o tempo todo, convencionamos chamar de loucos: “nem bem se conheceram e já foram morar junto. Agora vão casar. Tudo em menos de um ano.” Já os normais fazem diferente: esperam o Ano Novo para dar o salto. Fazem grandes promessas, juram que vão emagrecer, ganhar mais, viajar mais, estar mais perto das pessoas que amam…

Para ser normal não é preciso muito esforço. Apenas faça uma lista e siga.Já ser louco exige empenho duro. É preciso destravar a vida, abrir a porta e se molhar na tempestade que chamamos viver. Vai ter choro, sorriso, frio na barriga no meio do caminho, dança, grito, amor, ódio, emoções. Viver ou não viver? Eis a verdadeira e nobre questão da vida. Mas, enquanto os normais estão pensando na resposta, os loucos apenas vivem. E como vivem…

Mas, claro, há sempre o outro caminho: fazer a lista e esperar a loteria correr. Os desejos provavelmente vão ficar frustrados em meio à rotina e a loteria da vida será a sorte de pouquíssimos. Se tudo der errado, não tempo problema: no fim do próximo ano dá para tentar recomeçar tudo outra vez. Enquanto isso, os loucos vão vivendo. Eles sabem que a vida não para. Ela vai pulsando, caminhando, passando…Afinal, o melhor mesmo é viver.

Deixe um comentário

Filed under Uncategorized

MAIS UM FUTURO QUE ACABOU

Assim que nos falamos pela última vez, fiz uma lista mental das promessas que não cumpriríamos: comer o mil-folhas numa tarde qualquer, passar um fim de semana naquele hotel fazenda, preparar um jantar com os amigos mais próximos e o organizar nosso casamento debaixo daquela árvore. Não conseguimos ir muito além da terceira página da nossa história. Interrompemos, não sei exatamente, em qual momento. Talvez, naquela última noite, em seu sofá.

Desde o primeiro encontro, ficou claro que não teríamos fôlego para um romance, mas apenas um conto. Só esperava um conto um pouco maior. A verdade é que, quando o beijo não dá aquele calafrio na coluna, não há encontro. Mas insisti. Fiquei distraído – como sempre que há uma nova página em branco – com a possibilidade de virarmos nós. Viramos eu e você. Cada um na sua avenida, dançando o seu próprio carnaval.

No fim, você que fechou a porta e acabou com o que nem tínhamos começado. Fiquei na solidão distraído com aquele nosso futuro que ainda estava tão presente. Ficou uma última cena: naquela noite, que acabaríamos dormindo no sofá, cheguei em seu apartamento e você, na frieza do cotidiano, conversava com um cliente ao telefone. Fiquei na fila de espera pela sua atenção. Acho que ali, eu já não era ninguém para você. Mas me distrai com o que comeríamos. 

Deixe um comentário

Filed under Uncategorized