Passos para lá, passos para cá. A rua é nossa. Tudo esta vazio, não é preciso se preocupar: nenhum corpo impedirá que outro ocupe o lugar. Há espaço de sobra. Quando cruzamos, olhamos para lados opostos. Não nos encaramos. Não queremos nos ver. Ficamos intactos. Cada um dentro de si, com medo que alguém solte um “oi” ou um “bom dia”.
A rua esta vazia. O que nos separa é a coragem. Na verdade, é uma grande sacanagem. Nunca nos vimos, talvez nunca mais nos veremos. Não doerá absolutamente nada o “oi” despretensioso. Mas nos passamos, não nos vemos, nos deixamos. Cada um segue seu caminho. O que fica em nossa mente é o tamanho exato do buraco da calçada no momento em que decidimos não nos encarar.
“A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro”, disse certa vez Vinicius de Moraes. E o que nos resta é conviver com esses desencontros diários. Passos para lá, passos para cá e a vida vai passando, pessoas passam, olhares passam, buracos passam, a vida passa. E o despretensioso “oi” ficará eternamente na vontade.
Certa vez um amigo comentou essa atitude de muitas pessoas de não se olharem qdo se cruzam – e não só isso, de desviarem o olhar apressadamente sempre que vc tenta fazer contato visual. Parece um medo estranho… de ser invadido talvez? Não consigo saber, mesmo que também faça isso às vezes.
Gosto mesmo é de dar bom-dia pra todos – mesmo sabendo que receberei de volta, muitas vezes, apenas olhos pregados no chão, meio intrigados e compenetrados em seguir seu caminho sem dar ouvidos a estranhos.
Eu trabalho em um hospital e quantidade de bons dias que eu ofereço às pessoas é imensurável. Difícil quando sou respondido. Mas quando sou, mesmo que discretamente, com um sorrisinho pequeno, faz o dia, faz vida. Me desdobro e me irrito muito, mas uma pessoa faz com quem tudo valha à pena.