Uma amiga terminou um namoro de anos. Chorou, chorou, chorou. Resolveu correr para os braços de seus pais – precisava de carinho. Seu pai, psiquiatra, lhe disse: “a dor de um fim de relacionamento é como a morte”. Ela me contou isso durante um café, depois de já estar recuperada do luto – ou aparentar estar. Essa frase voltou à minha mente quando cheguei à página 49 de O Ano do Pensamento Mágico, de Joan Didion. “Os golfinhos se recusam a comer depois da morte do companheiro. Os gansos reagem a esse tipo de perda voando e grasnando procurando o companheiro até ficarem desorientados e perdidos. Os seres humanos [...] procuram pelo companheiro. Param de comer. Esquecem de respirar. Ficam meio tontos à baixa de oxigênio, entopem os seios da face com lágrimas não derramadas e terminam nos consultórios dos otorrinolaringologistas com estranhas infecções no ouvido.”
O divino compositor Cole Poter escreveu que toda a vez que se despedia do amor, morria um pouco, se preocupava um pouco. O amor tem pequenas despedidas, pequenas mortes, pequenos lutos. É diário. O casal está na plataforma do trem, cada um irá para um lado, a vida precisa seguir, um dos trens chega, a namorada apressada, com medo de que a porta feche e precise esperar mais sete minutos pela outra composição, beija o namorado. Ele, por sua vez, a agarra pela face e beija apertado. Ela corre, entra no trem, fica olhando pela janela. Ele caminha, segue olhando para trás, para o amor. Eles se amam, mas estão vivendo um luto naquele instante.
Um dia, o amor tem uma parada cardíaca. É algo súbito. Como diz Paulo Mendes Campos, “O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro [...]a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.”
Lindo texto!!! Só li pq ainda amo e nao sou correspondido. Gostei da analogia do amor e luto apesar d ser um pouco tragica. Me mantenha informado sobre novos textos.
Eu gosto do frisson que a possibilidade do término carrega. É sedutor.
Amo teu blog, muito inteligente.
Interessante observação do Marcelo…
Eu não sei se gosto da possibilidade do término, em si. Mas, apesar do medo que ela carrega, das pequenas e grandes dores do luto, é isso tudo que me faz tentar gozar ao máximo enquanto a chama ainda arde
Gostei muito do blog e do texto. Me ganhou como leitor
Die a little , just a little , and ready to be born when I see you again . And even when it dies completely , it can rebirth from ashes as just like as the Phoenix , That’s the beauty of LOVE !