São pobres os professores – não por conta do salário, é claro. Essa classe é paupérrima por acreditar que os alunos estão ali para aprender. Aceitem, pobres: eles sentam nas duras cadeiras por duras horas apenas para prestar atenção nos sutis detalhes. Passam manhãs estudando o olho direito que pisca incansavelmente, a mão que bate na perna e rebate na testa, o corpo estirado na lousa enquanto os dedos indicam palavras escritas no quadro branco. São esses pequenos detalhes, como o de pegar a caneta na ponta oposta a que escreve, que fazem um professor. Os olhos vidrados dos aprendizes miram esses mínimos acordes dessoantes – a aula, em si, é música de fundo.
Professores têm um ritual em comum: assim que abarcam na porta da sala de aula, caminham dez passos até a mesa, onde deixam uma mala retangular – que costuma ficar de esgueio no corpo. O celular, que antes habitava algum bolso, é armazenado no repartimento da frente da bolsa, da onde saem algumas folhas com vários nomes, um desses meios burocráticos que arrumaram para ter a atenção de seus alunos – pobres! Mal sabem eles: os olhos fisgam as sutilezas que passa desapercebia pelos professores quando passam diante a um espelho.
É preciso aceitar, também, que alunos são, naturalmente, apaixonados. A mão que, a cada sete minutos, move o cabelo da direita para e esquerda, tira (muitos) suspiros dos alunos. Já as meninas se focam nos braços que saltam da camiseta que fica grugada entre os músculos ou no detalhe do óculos quadrado do professor que fala com charme latino.
A verdade é que não há tempo para copiar tudo o que é escrito e falado. Os mestres querem despejar conhecimento e, pobres, perdem por não perceberem que devem encantar seus aprendizes. O tempo dos alunos fica restrito a, metodologicamente, fazer uma observação participante do ambiente. Entra, constantemente, no cronograma, analisar o ar condicionado, resgatar memórias de semanas anteriores e descrever argumentos para que uma atividade não seja realizada. Alguns professores, é preciso dizer, se perdem nessa rotina, também. Passam horas a contar casos que “um dia podem acontecer com você”, dizem para se desculpar da terapia em grupo.
No fundo, esses momentos em que professores e alunos se encaram não passam de um detalhe na imensa e profunda relação que os olhares compõe. São justamente nos instantes em que eles se encaram que acontece a mágica do aprender. O problema, claro, é quando outros detalhes distraem, como o olho que abre e fecha incansavelmente, a mão que toca a perna e caminha até a cabeça, nos músculos que se exibem, no óculos que serve como fronteira, na mão que passeia pelo cabelo, no ar frio, nas infindas histórias, esses detalhes que não esquecem pela estrada.
Oi Lucas, o comentário aqui é sobre um twitt teu sobre o diario de bridget jones.Sabe, a abertura do filme que aparece ela cantando, representa mais ainda a situação que falastes, sobre fim de facul e etc..Risos.
Abs
Voltei muito pro terceiro ano do ensino médio. Com exceção às aulas de literatura, toda a minha presença nas aulas baseava-se em observar os professores e suas manias.