Janeiro 18, 2010

MODERNA IMPOSSIBILIDADE PERFEITA

Janaina Uhlmi é desse tipo de mulher moderna: lava, passa, cozinha, trabalha, dirige, cuida dos filhos, do marido, dos pais, dá conselhos para as amigas, irmãs e filhas das amigas, faz curso de línguas diferente, porque as comuns já fala, assiste, ao menos, uma peça e um filme e frequenta uma exposição por semana além dos dois livros lidos, no mesmo período, atualiza diariamente seu blog, lê cinco jornais todo santo dia, e 3 revistas no final de semana.

Janaina é impossível, faz de tudo e tudo bem feito. Mulher forte, obviamente. Não conta para ninguém, mas Janaina tem um amante. É possível fazer tudo isso e ainda ter amante? Janaina é impossível, é incrível, não pelo adultério, mas por saber usar seu tempo. Que fique claro, Janaina sai com seu amante quase todos os dias. Outra informação, Janaina continua mantendo uma vida camística extremamente frequente com seu marido.

Janah, assim os íntimos (filhos, marido, amante, colegas de trabalho próximos, amigas, família e perfil no Orkut, Twitter e Facebook) a chamam, consegue ser tão impossibilitada de viver a realidade que vai vivendo uma realidade criada por ela. Faz tudo, de tudo, e não faz nada. Sim, faz perfeito, faz profundo, mas não faz nada que tem vontade, faz para ser a filha perfeita, a amiga perfeita, a mãe perfeita, a chefe e funcionária perfeita, a esposa perfeita, a amante perfeita. Janah, é gente moderna.

Janeiro 3, 2010

CASUALIDADE

Calçada no pé, copo na mão, cadeira na traseira. O papo por horas. Mão com cigarro e boca aos tragos. Os redondos da cara se enfrentavam como quem parecia guerrear por um espaço no outro lado.  Garçom, cerveja. Garçom, amendoim. Sambista, aquele samba. Você, um beijo.

Cerveja subiu pela cabeça e não teve jeito: os buracos faciais se tocaram. Mais cerveja, queijo-azeite-orégano-palito-de-dente. Garçom, a conta. Chave, direção, farol, vaga, portaria, elevador, chave, maçaneta, mãos. Caminhou-se até a cama e os corpos se jogaram. Boca na boca, mão por ali, por assim, por assado, de um lado, mão lá dentro. Zíper, botão, camiseta no chão, calça na cadeira. Pega ali, na primeira gaveta. Sim, mais, aqui, assim, ai. Corpos suados lado a lado, deitados.

Aqui está meu telefone, ligue amanhã, se quiser. Não tenho como ligar amanhã, viajo bem cedo, mas volto em uma semana. Ligue assim que chegar. Não ache que não ligarei. Assim está perfeito, não esqueça seu celular que ali no criado mudo. Bem lembrado.  Boa viagem. Boa noite.

Novembro 9, 2009

SOZINHOS JUNTOS

O objeto é solitário. Não existe parceria. Até mesmo aqueles em conjunto, são sozinhos. Alguns chamam de individualidade. Outros, privacidade. Ainda existem aqueles que insistem em nomear de unidade, ou dizem: o ser é único. Enfim, aquilo que, no fundo, é a solidão em sua mais nobre existência, torna-se algo diferente. Mas, é, na verdade, a mais forte realidade. O ser quer ser conjunto, mas é peça solitária. E não veja isso como problema. Isso é solução.

Um dia, vai pai. Vai mãe. Irmã. Irmão. Amigo. E você, continua vivo. E a morte, talvez, demore a te encontrar. E você, amigo, irmão, irmã, mãe, pai, um dia vai deixar de ser. E então? Morrer, talvez não dê. Até o sol é solitário. Vai ter e ser pai, mãe, irmão, irmã, amigo, mas vai ter ninguém e vai deixar de ser. Infelizmente, é assim. Desculpe.

E com tanta gente, continua-se só. Vai solidão por ai, vem dali. Solidão em conjunto. Solitários juntos. Sozinhos em comunhão. Punhados de solitários pelos bares. Grupos de sós. Todo mundo junto. Só sozinhos sabemos a solidão, mas só em mais de um que entendemos a solidão. E que fique claro: solidão não é triste.

Outubro 19, 2009

HOMENAGEM DE UM GUARDA-CHUVA

A chuva, em seu estado sólido, é assustadora. Quando vista pela janela, qualquer um se assusta. Mas, pela janela, o medo torna-se alívio, há existência de proteção. A chuva, em seu estado insólido, é horripilante. Na verdade, é úmida e fria. Há, porém, entretantos líquidos e chuvosos quando exercitamos a racionalidade. Sem a chuva sólida, não há chuva insólida, vice e versa, verso e oposto. Desolidificação aquosa: o sólido não significa permanente

 

A chuva, em seu estado paisagístico, é, sem sombra de dúvida, a mais aterrorizante visão natural. É invasão paisagística. É sólido e insólido, tudo junto no mesmo lugar. Filme de terror à olhos nus. Aquele que nunca teve essa cena à sua frente, melhor a morte ou é hora de viver os olhos com evidência.

 

A chuva é, certamente, a natureza do avesso. É o contrário do oposto: céu que vem ao chão, fundo do chão do universo que se derrama. Porém, o mais impróprio da chuva é o eterno não parar e não ter hora para desolidificar. Afinal, é o mesmo produto que vai e vem, faz e desfaz. Depois de um tempo – e já tem tempo que isso acontece – o produto apodrece.

Outubro 16, 2009

BUSCA DA ONIPRESENÇA

Ouvi essa história em uma viagem de ônibus entre o trabalho e minha residência. Ambas sentadas atrás de mim, o que facilitou a audição, Rê e Li – os nomes completos não consegui descobrir – conversaram durante às duas horas e quatorze minutos que permaneci no transporte dos que ainda não puderam comprar um carro para correr a cidade. Li tinha voz leve, dessas tímidas, e Rê tinha voz feia. É engraçado chamá-las de Rê e Li, soa íntimo. Se bem que, elas não quiseram privacidade ao contar a história.

Rê namorava um tal de Rafa. Transaram, como Li já sabia, no segundo encontro que aconteceu no dia seguinte do primeiro. Primeira vez, não gostou. Grande, grosso, desengonçado e no carro. Li, chocou-se, fez a coitada virgem. Rê, sem pudor real e oral, contou o detalhe dos sussurros no instante do gozo de Rafa. Li, curiosa coitada, riu. Mas aconteceu que Rafa foi comparado a Gil, que era médio, gostoso e bom no que fazia.

Gil era dos tempos de colégio. Li então, de repente, lembrou-se que falou com Gil na semana anterior. Foi em uma festa, em um bar de esquina. E não é que a Li trocou saliva com Gil? A Rê não gostou não, é fato. Mas o Rafa era a preocupação de Rê: ele era o homem quase perfeito, faltava os atributos de Gil, que aliás, a Li está querendo. Desci e não soube dos detalhes do investimento, da saliva e do resto.

Outubro 15, 2009

EMBALADA PARA VIAGEM

Por conta do sol que ardia à pele, Cláudia deixou o ar livre para encontrar a sombra. Pelo caminho, pela areia, além dos prédios e do quiosque à sua frente, viu, à sua frente, o objeto caído: plástico esverdeado em formato ogival tampado com plástico embranquecido. Clau – melhor chamá-la como a chamam – sentou, agora em direção ao mar, e, sem saber o porquê, refletiu sobre a plasticidade em seu caminho.

 

O caminho em si, algo rotineiro, corriqueiro, cotidianamente aos feriados e finais de semanas, comum não seria o problema inicial, pontual. Mesmo que, de fato, o caminho sugerisse movimentos mecanizados, o caminhante modifica. Claramente, o plástico no meio do trajeto também já é comum. Plástico o caminho e no caminho. Mesmo Clau é plástica. Não plástica médica, cirúrgica ou estética. Plástica programada. Plástica social. Bastam alguns meses no meio e o formato já está formado.

 

Clau, em um surto, um devaneio, para ser bem sincero, chamou o garçom, ou melhor, o filho da dona do quiosque, e pediu (na verdade, Clau é do tipo que ordena) camarões fritos e cerveja para acompanhar o habitual, a usual paisagem do oceano em seu encontro com os pedaços de terra. Por conta do sol ardente, a chuva, eminente, caiu, fazendo com o que o quiosque lotasse. Clau, sem pestanejar, continuou a comer seu camarão e a tomar sua cerveja.

 

Outubro 14, 2009

MESMO ASSIM

A primeira vez que vi Paula Vencezlaus e Roberto Bortuñolu foi em um jantar na casa de Virgínia, amiga que há muito tempo nem eu e nem eles conversam mais. Vírginia é uma dessas pessoas incríveis que a vida insiste em afastar sem um porquê exato. Porém o caso, dessa vez, é sobre Paula e Roberto. Ela, diretora de RH de uma multinacional, ele, arquiteto e com escritório próprio e renomado. Ambos de uma simpatia, inteligência e companhia agradável para qualquer momento. Sem mas ou porém, a verdade é que, há duas semanas, soube que Paula estava com câncer no esôfago. As palavras me sumiram e, na mesma hora, liguei para Roberto, que estava aos prantos no colo de sua mãe. Ficamos eu, ele e a mãe sem palavras. Nessas horas, as palavras ficam tão inexpressivas. O melhor, mesmo, é o olhar, que afaga qualquer alma.

Eu, sinceramente, não sabia por onde seguir, por onde caminhar, o que fazer. É um câncer. Mesmo que a tecnologia atual seja muito eficiente e moderna, é um câncer. Não é uma dor de garganta, não é caxumba, não é refluxo. É câncer no esôfago.

Encontrei Paula no último final de semana. Foi então que fiquei sem palavras de verdade. Paula estava sorridente, mostrava na face uma felicidade tão grande que nem parecia que ela tinha um câncer. “Certamente o sorriso é uma defesa”, pensei. Ingenuidade minha. Depois de duas horas conversando, percebi que Paula estava realmente feliz e aquele câncer não afetaria sua felicidade, que, segunda ela, “não é mutável, é permanente”. Depois do almoço, sentei com Paula na varanda seu apartamente. Ficamos lá por horas conversando sobre a vida. Ela, alma incrível que é, disse uma verdade para ela, que agora tomo para mim: “Depois do resultado do exame, descobri como sou frágil e que se eu não sorrir agora, pode ser que nunca mais sorria”.

 

Outubro 12, 2009

VERDADE SOLITÁRIA

Joseph Robert Irgier disse em uma entrevista recente que “o impossível e o incompreensível são apenas maneiras de não querermos aceitar a verdade”. Já não sei se devo acreditar nas frases que leio e ouço pela vida. Elas parecem servir apenas para quem as criou. Mas acredito que, de certa forma, temos algo em comum com o mundo e esse laço é que nos faz ouvir e ler as frases e pensar sobre elas. Talvez por conta disso, refleti sobre e a frase.

A verdade, ou melhor, a realidade, aos nossos olhos dói tanto que não queremos ver, quando deveríamos entender que essa realidade é o que nos compõe. Os sonhos e desejos são formas de tentar mudar essa verdade, mas ela em si é o que somos e ver isso é a  unica forma para conseguirmos mudá-la. E mudar a realidade nada mais é do que viver a verdade, acreditar no que podemos ser e sermos o que somos.

Outra frase de J. R. Irgier que muito me impressionou – essa eu li em seu segundo livro, ‘Poemas inválidos’ – foi: “Cada um em seu instante, às vezes, encontrados. Não existe o nós, apenas nós”. Não que haja verdade imutável, entretanto acredito muito nessa história de que nada mais somos do que seres sozinhos que em alguns momentos se encontram.

Outubro 7, 2009

AQUELA ERA JÁ ERA

De imediato, resolveu que seria diferente. Pensou em planilha, lista e promessas. Era quase certo que nunca mais sairia dali. Tentou samba, álcool, dança. Nada preenchia aquilo tudo. Aquela vastidão. Queria ir-se pelo que era, não pelo que viria. Tentou de tudo, com todos. Sem nada, sem sucesso.

Largou tudo, em uma tarde chuvosa. Descalço pela calçada. Deixou tudo. Passado, álcool, planilha. Mandou-se por ele mesmo. Deixou-se desmoronar até chegar no fim da rua. Dali em diante, levantou-se e resolveu viver como deveria. “Afinal, somos o que queremos ser”, relatou-me.

No dia seguinte acordou, pisou pelo quarto na ponta dos pés. Entre tudo aquilo que o assombrava antes, mas o que mais lhe assombrou foi estar no meio de tudo aquilo. Mas agora, era outra era. Eis ele na vida outra vez.

Outubro 5, 2009

GRITOS SUSSURRADOS

Durante alguns anos, poucos, não colocou os pés em casa. Não sabia onde, exatamente, vivia. Apenas via-se ali, estacanda, parada por algo que não fora sua culpa. Um força bruta surgia, de onde não fazia idéia. Espancada pela vida, por ser quem decidiu ser.  Vivia quebrando cada pedra que brotava do chão. Sem reclamar, quabrava.

Durante o sono, certa vez, declarou que queria voltar aos anos em que a porta ainda não deixava o mundo entrar nela. A vida lhe doia as veias, que já estavam abertas, escancaradas. Os pés já estavam cansados de caminhar, os olhos de enxergar o mundo como é.

Voava em si para enganar-se da realidade. Só assim era capaz de enfrentar o mundo: com gritos sussurrados. Mas, então, raptaram cada essência. Deixaram, esse ser sem o sofrer. Aliviou-se. Ficamos nós com seus gritos sussurrados que entoam uma força que somente ela poderia declamar.