A chuva, em seu estado sólido, é assustadora. Quando vista pela janela, qualquer um se assusta. Mas, pela janela, o medo torna-se alívio, há existência de proteção. A chuva, em seu estado insólido, é horripilante. Na verdade, é úmida e fria. Há, porém, entretantos líquidos e chuvosos quando exercitamos a racionalidade. Sem a chuva sólida, não há chuva insólida, vice e versa, verso e oposto. Desolidificação aquosa: o sólido não significa permanente
A chuva, em seu estado paisagístico, é, sem sombra de dúvida, a mais aterrorizante visão natural. É invasão paisagística. É sólido e insólido, tudo junto no mesmo lugar. Filme de terror à olhos nus. Aquele que nunca teve essa cena à sua frente, melhor a morte ou é hora de viver os olhos com evidência.
A chuva é, certamente, a natureza do avesso. É o contrário do oposto: céu que vem ao chão, fundo do chão do universo que se derrama. Porém, o mais impróprio da chuva é o eterno não parar e não ter hora para desolidificar. Afinal, é o mesmo produto que vai e vem, faz e desfaz. Depois de um tempo – e já tem tempo que isso acontece – o produto apodrece.
