A farsa está instalada. É como se o espetáculo estive em plena cena e fechar as cortinas, nesta altura do campeonato, deixaria todos os espectadores desnorteados. Não tem muito o que fazer. Continuar será chegar a um fim, mas daqueles sem sentido.
Como poças em uma trilha de barro, a verdade é rasa. Reza a lenda que certa vez foi pega com a mentira na boca da botija, mas saiu pela tangente e achou a saída (de emergência). Mas é difícil. Desviar a rota, mesmo com as poças, exige muito esforço.
Não há conexão, muito menos, compreensão. A verdade é esta: é tudo uma grande mentira. Os passos, os olhares, os gestos, mesmos os mais simples. O resultado já está claro: o fracasso.
Esses absurdos da vida cansam. Os sorrisos ensaiados, os abraços sem sentido, as palavras descabidas. A falta de sinceridade e a distância sem um nítido sentido. Sentimentos sem sentido… Essa falta de agradecimentos ou essa despretenciosa falta de tempo para estar junto. Esse vai e vem, corre daqui, corre dali, até quando vamos assim? Esses absurdos cansam!
Cansa esse teatro todo, essa ganância que não levará a lugar nenhum, senão a um quarto escuro onde palavras são pagas. Desses absurdos. Uma senhora com uma bolsa desce a escada e ninguém oferece ajuda. O te ligo depois que nunca fez um só telefone tocar. As mãos que se tocam apenas por comodidade.
Há gigantes abismos entre ser e estar. Ou não? Enfim, um absurdo. Ali se está, mas não é, ou vice e versa, ou verso e nada. O importante é ser, nunca estar. Ou será estar e nunca ser? Talvez ser e estar no mesmo sentido de apenas viver. Mas viver é um absurdo sem cabimento. Mas tudo bem, está tudo bem e com você?
O sofá que se conheceram estava à venda até agora. Já não se cumprimentam. Cansaram-se, quando era hora de casar. Venderam a casa, os castelos construídos ao luar e o sofá. Sentem-se distantes. A árvore que usaram de sombra começou a florescer na última semana, mas as flores agora cobrem o chão. Mas interessam as tramas, não os dramas.
O sofá ficava na biblioteca de uma amiga em comum. Em uma festa, terminaram a noite sentados nele. Da conversa ao beijo. Do beijo ao sono, sonho, namoro, divisão de contas. Vidas que viraram uma vida. A amiga deu o sofá de presente.
Em uma manhã, se encontraram num café perto do trabalho dos dois. Não se disseram nada. No final do dia chegou um e-mail com uma proposta de compra do sofá. Um casal recém-casado mobiliava o apartamento. Venderam. Agora, um até mais.
Embora aquele não fosse o lugar nem o momento ideal, foi inevitável: tiveram que se cumprimentar. Ele tinha ido embora meses antes, sem deixar uma palavra de explicação. Ela, em desespero, entrou em depressão por três semanas seguidas – com direito a licença do trabalho e visita de duas amigas todos os dias, sem contar a mãe que, recomendada por uma amiga psicóloga, passou a dormir no quarto ao lado, usado como escritório, para evitar um possível suicídio. Seis meses depois do desencontro forçado por ele, ali naquele restaurante de esquina, que nunca tinham ido durante os quatro anos que passaram juntos, eles foram postos lado a lado por culpa do maître.
O acaso foi incomodo, a solidão na mesa gritava na cara deles. Não tinham perguntas a serem feitas. Ela não queria saber como ele estava, com quem estava, como andava. Ele não tinha coragem de perguntar nada. Ele saiu em silêncio, agora não seria a hora de dizer nada. Ele tinha seu motivo, uma típica defesa: por culpa de dois relacionamentos anteriores que não deram certo justamente depois de quatro anos, ele achou por bem abandoná-la antes que ela dissesse adeus.
Ambos esperavam alguém, cada um o seu alguém. Ela, uma amiga. Ele, uma nova menina. Ficou o impasse de ir ou não embora. A amiga chegou e, antes de sentar, disse impávida: “o Roberto ligou, vamos encontrar com eles no restaurante ao lado”. Ele ficou lá. Elas foram para outro restaurante encontrar ninguém, senão elas mesmas, afinal o Roberto não existia. Ele continuou lá por mais uma hora e meia, a espera de uma menina que ele tinha conhecido em um bate papo na internet. Ela foi embora assim que viu que ele era calvo.
- Oi.
- Oi…
- Como está a vida?
- Sob controle. E você?
- Sem controle algum. E ainda não decidi se é bom ou ruim…
- Diferente?
- Parece que desisti de ter um rumo e estou indo…
- E a sensação é boa?
- Ainda não sei para caminho. Mas será que alguém sabe? Será que precisamos saber?
- Tenho fugido de questões existencialistas.
- Estou tentando fugir, mas nesse caminhar sem rumo só ouço o eco de todas as minhas dúvidas.
- O dia em que você escutar o eco de seus passos talvez tenha encontrado o rumo.
- E isso que você estava fugindo das questões existencialistas.
- É que elas insistem em ecoar nas vozes que me cercam.
Sempre acreditei que finais deveriam ser relatados. Uma carta, uma conversa, um momento a dois. Um ponto final no texto. A partir dele, a história seria passado e o futuro, um dia esperado, ficaria em vão.
Um dia achei que a sinceridade daquele momento seria o melhor caminho para um futuro menos frustrado. Errei. Histórias acabam no telefonema não dado, em uma noite em que os olhos não se encontram ou as mãos não se apertam com vontade.
O fim chega desacompanhado. O filme acaba, as luzes se acendem e os funcionários da limpeza entram na sala. Não resta nada a fazer senão aceitar que terminou.
Queria explodir como um quadro de Pollock. Explosão. Tudo esparramado. Uma bomba de mim pelos ventos. Minha voz gritando, ecoando, até sumir no deserto dos ventos desta cidade. Nada além de mim, sem ser. Essas profundezas da vida.
Já pulso, ouso, pulso, ouço, pulso. Não me venha falar da moldura. Quero explodir. Rasgar. Não quero morrer, quero pulsar. Morrer é o fim, quero crescer, explodir. Essas feridas, rasgadas, racham o chão, caio sem fim, ecoo em mim. Eu, eu, eu, eu…
Me esparramo sem fim. É preciso parar. A placa diz: pare. “Deixe de se levar tão a sério”. Ser menos terno e mais…menos, menos, bem menos. Essas palavras estão brutas. Truculentas. Dolorosas. Explodem. Vão ao céu, caem e não servem de nada. O fim é o mesmo começo: queria explodir como em Pollock.