SOZINHOS JUNTOS

•Novembro 9, 2009 • 1 Comentário

O objeto é solitário. Não existe parceria. Até mesmo aqueles em conjunto, são sozinhos. Alguns chamam de individualidade. Outros, privacidade. Ainda existem aqueles que insistem em nomear de unidade, ou dizem: o ser é único. Enfim, aquilo que, no fundo, é a solidão em sua mais nobre existência, torna-se algo diferente. Mas, é, na verdade, a mais forte realidade. O ser quer ser conjunto, mas é peça solitária. E não veja isso como problema. Isso é solução.

Um dia, vai pai. Vai mãe. Irmã. Irmão. Amigo. E você, continua vivo. E a morte, talvez, demore a te encontrar. E você, amigo, irmão, irmã, mãe, pai, um dia vai deixar de ser. E então? Morrer, talvez não dê. Até o sol é solitário. Vai ter e ser pai, mãe, irmão, irmã, amigo, mas vai ter ninguém e vai deixar de ser. Infelizmente, é assim. Desculpe.

E com tanta gente, continua-se só. Vai solidão por ai, vem dali. Solidão em conjunto. Solitários juntos. Sozinhos em comunhão. Punhados de solitários pelos bares. Grupos de sós. Todo mundo junto. Só sozinhos sabemos a solidão, mas só em mais de um que entendemos a solidão. E que fique claro: solidão não é triste.

HOMENAGEM DE UM GUARDA-CHUVA

•Outubro 19, 2009 • Deixe um Comentário

A chuva, em seu estado sólido, é assustadora. Quando vista pela janela, qualquer um se assusta. Mas, pela janela, o medo torna-se alívio, há existência de proteção. A chuva, em seu estado insólido, é horripilante. Na verdade, é úmida e fria. Há, porém, entretantos líquidos e chuvosos quando exercitamos a racionalidade. Sem a chuva sólida, não há chuva insólida, vice e versa, verso e oposto. Desolidificação aquosa: o sólido não significa permanente

 

A chuva, em seu estado paisagístico, é, sem sombra de dúvida, a mais aterrorizante visão natural. É invasão paisagística. É sólido e insólido, tudo junto no mesmo lugar. Filme de terror à olhos nus. Aquele que nunca teve essa cena à sua frente, melhor a morte ou é hora de viver os olhos com evidência.

 

A chuva é, certamente, a natureza do avesso. É o contrário do oposto: céu que vem ao chão, fundo do chão do universo que se derrama. Porém, o mais impróprio da chuva é o eterno não parar e não ter hora para desolidificar. Afinal, é o mesmo produto que vai e vem, faz e desfaz. Depois de um tempo – e já tem tempo que isso acontece – o produto apodrece.

BUSCA DA ONIPRESENÇA

•Outubro 16, 2009 • 2 Comentários

Ouvi essa história em uma viagem de ônibus entre o trabalho e minha residência. Ambas sentadas atrás de mim, o que facilitou a audição, Rê e Li – os nomes completos não consegui descobrir – conversaram durante às duas horas e quatorze minutos que permaneci no transporte dos que ainda não puderam comprar um carro para correr a cidade. Li tinha voz leve, dessas tímidas, e Rê tinha voz feia. É engraçado chamá-las de Rê e Li, soa íntimo. Se bem que, elas não quiseram privacidade ao contar a história.

Rê namorava um tal de Rafa. Transaram, como Li já sabia, no segundo encontro que aconteceu no dia seguinte do primeiro. Primeira vez, não gostou. Grande, grosso, desengonçado e no carro. Li, chocou-se, fez a coitada virgem. Rê, sem pudor real e oral, contou o detalhe dos sussurros no instante do gozo de Rafa. Li, curiosa coitada, riu. Mas aconteceu que Rafa foi comparado a Gil, que era médio, gostoso e bom no que fazia.

Gil era dos tempos de colégio. Li então, de repente, lembrou-se que falou com Gil na semana anterior. Foi em uma festa, em um bar de esquina. E não é que a Li trocou saliva com Gil? A Rê não gostou não, é fato. Mas o Rafa era a preocupação de Rê: ele era o homem quase perfeito, faltava os atributos de Gil, que aliás, a Li está querendo. Desci e não soube dos detalhes do investimento, da saliva e do resto.

EMBALADA PARA VIAGEM

•Outubro 15, 2009 • Deixe um Comentário

Por conta do sol que ardia à pele, Cláudia deixou o ar livre para encontrar a sombra. Pelo caminho, pela areia, além dos prédios e do quiosque à sua frente, viu, à sua frente, o objeto caído: plástico esverdeado em formato ogival tampado com plástico embranquecido. Clau – melhor chamá-la como a chamam – sentou, agora em direção ao mar, e, sem saber o porquê, refletiu sobre a plasticidade em seu caminho.

 

O caminho em si, algo rotineiro, corriqueiro, cotidianamente aos feriados e finais de semanas, comum não seria o problema inicial, pontual. Mesmo que, de fato, o caminho sugerisse movimentos mecanizados, o caminhante modifica. Claramente, o plástico no meio do trajeto também já é comum. Plástico o caminho e no caminho. Mesmo Clau é plástica. Não plástica médica, cirúrgica ou estética. Plástica programada. Plástica social. Bastam alguns meses no meio e o formato já está formado.

 

Clau, em um surto, um devaneio, para ser bem sincero, chamou o garçom, ou melhor, o filho da dona do quiosque, e pediu (na verdade, Clau é do tipo que ordena) camarões fritos e cerveja para acompanhar o habitual, a usual paisagem do oceano em seu encontro com os pedaços de terra. Por conta do sol ardente, a chuva, eminente, caiu, fazendo com o que o quiosque lotasse. Clau, sem pestanejar, continuou a comer seu camarão e a tomar sua cerveja.

 

MESMO ASSIM

•Outubro 14, 2009 • Deixe um Comentário

A primeira vez que vi Paula Vencezlaus e Roberto Bortuñolu foi em um jantar na casa de Virgínia, amiga que há muito tempo nem eu e nem eles conversam mais. Vírginia é uma dessas pessoas incríveis que a vida insiste em afastar sem um porquê exato. Porém o caso, dessa vez, é sobre Paula e Roberto. Ela, diretora de RH de uma multinacional, ele, arquiteto e com escritório próprio e renomado. Ambos de uma simpatia, inteligência e companhia agradável para qualquer momento. Sem mas ou porém, a verdade é que, há duas semanas, soube que Paula estava com câncer no esôfago. As palavras me sumiram e, na mesma hora, liguei para Roberto, que estava aos prantos no colo de sua mãe. Ficamos eu, ele e a mãe sem palavras. Nessas horas, as palavras ficam tão inexpressivas. O melhor, mesmo, é o olhar, que afaga qualquer alma.

Eu, sinceramente, não sabia por onde seguir, por onde caminhar, o que fazer. É um câncer. Mesmo que a tecnologia atual seja muito eficiente e moderna, é um câncer. Não é uma dor de garganta, não é caxumba, não é refluxo. É câncer no esôfago.

Encontrei Paula no último final de semana. Foi então que fiquei sem palavras de verdade. Paula estava sorridente, mostrava na face uma felicidade tão grande que nem parecia que ela tinha um câncer. “Certamente o sorriso é uma defesa”, pensei. Ingenuidade minha. Depois de duas horas conversando, percebi que Paula estava realmente feliz e aquele câncer não afetaria sua felicidade, que, segunda ela, “não é mutável, é permanente”. Depois do almoço, sentei com Paula na varanda seu apartamente. Ficamos lá por horas conversando sobre a vida. Ela, alma incrível que é, disse uma verdade para ela, que agora tomo para mim: “Depois do resultado do exame, descobri como sou frágil e que se eu não sorrir agora, pode ser que nunca mais sorria”.

 

VERDADE SOLITÁRIA

•Outubro 12, 2009 • Deixe um Comentário

Joseph Robert Irgier disse em uma entrevista recente que “o impossível e o incompreensível são apenas maneiras de não querermos aceitar a verdade”. Já não sei se devo acreditar nas frases que leio e ouço pela vida. Elas parecem servir apenas para quem as criou. Mas acredito que, de certa forma, temos algo em comum com o mundo e esse laço é que nos faz ouvir e ler as frases e pensar sobre elas. Talvez por conta disso, refleti sobre e a frase.

A verdade, ou melhor, a realidade, aos nossos olhos dói tanto que não queremos ver, quando deveríamos entender que essa realidade é o que nos compõe. Os sonhos e desejos são formas de tentar mudar essa verdade, mas ela em si é o que somos e ver isso é a  unica forma para conseguirmos mudá-la. E mudar a realidade nada mais é do que viver a verdade, acreditar no que podemos ser e sermos o que somos.

Outra frase de J. R. Irgier que muito me impressionou – essa eu li em seu segundo livro, ‘Poemas inválidos’ – foi: “Cada um em seu instante, às vezes, encontrados. Não existe o nós, apenas nós”. Não que haja verdade imutável, entretanto acredito muito nessa história de que nada mais somos do que seres sozinhos que em alguns momentos se encontram.

AQUELA ERA JÁ ERA

•Outubro 7, 2009 • 1 Comentário

De imediato, resolveu que seria diferente. Pensou em planilha, lista e promessas. Era quase certo que nunca mais sairia dali. Tentou samba, álcool, dança. Nada preenchia aquilo tudo. Aquela vastidão. Queria ir-se pelo que era, não pelo que viria. Tentou de tudo, com todos. Sem nada, sem sucesso.

Largou tudo, em uma tarde chuvosa. Descalço pela calçada. Deixou tudo. Passado, álcool, planilha. Mandou-se por ele mesmo. Deixou-se desmoronar até chegar no fim da rua. Dali em diante, levantou-se e resolveu viver como deveria. “Afinal, somos o que queremos ser”, relatou-me.

No dia seguinte acordou, pisou pelo quarto na ponta dos pés. Entre tudo aquilo que o assombrava antes, mas o que mais lhe assombrou foi estar no meio de tudo aquilo. Mas agora, era outra era. Eis ele na vida outra vez.

GRITOS SUSSURRADOS

•Outubro 5, 2009 • Deixe um Comentário

Durante alguns anos, poucos, não colocou os pés em casa. Não sabia onde, exatamente, vivia. Apenas via-se ali, estacanda, parada por algo que não fora sua culpa. Um força bruta surgia, de onde não fazia idéia. Espancada pela vida, por ser quem decidiu ser.  Vivia quebrando cada pedra que brotava do chão. Sem reclamar, quabrava.

Durante o sono, certa vez, declarou que queria voltar aos anos em que a porta ainda não deixava o mundo entrar nela. A vida lhe doia as veias, que já estavam abertas, escancaradas. Os pés já estavam cansados de caminhar, os olhos de enxergar o mundo como é.

Voava em si para enganar-se da realidade. Só assim era capaz de enfrentar o mundo: com gritos sussurrados. Mas, então, raptaram cada essência. Deixaram, esse ser sem o sofrer. Aliviou-se. Ficamos nós com seus gritos sussurrados que entoam uma força que somente ela poderia declamar.

LEMBRA DE ESQUECER

•Outubro 4, 2009 • 1 Comentário

O fato de querer esquecer faz com que a gente não queira lembrar algo. É simples, não queremos saber se esquecemos algo, pois ao tentar constatar se esquecemos ou não, lembramos do que queríamos esquecer. Logo, esquecer não basta, é preciso não lembrar e nem querer lembrar.

Esquecer é para poucos. Esquecer é muito além de simplesmente não lembrar. Pobre do coitado daquele que se acha capaz de esquecer. Fica na gente a lembraça constante, principalmente se esquecer é o objetivo. Não existe vida nessa terra que não queira deixar de lembrar de algo, mas também não há um só que não saiba que para esquecer, não basta deixar de pensar.  A cidade, a casa.  A vida nos lembra a toda hora do que se quer esquecer. Parece praga. Mas não é. Somos nós mesmos querendo lembrar.

Lembrar é para poucos. Tente se lembrar de algo que esqueceu. Inútil, pois se esqueceu, não lembrará. Ou seja, lembrar e esquecer, tudo uma questão de não pensar se lembra ou se esquece. Se quiser esquecer, lembrará. E se quiser lembrar, esquecerá.

RECORTE INESPERADO

•Setembro 30, 2009 • Deixe um Comentário

Dançavam os dois corpos no meio do salão oval. Ao redor, outros corpos. Era verdade ali, crua, nua. Despida de qualquer história. Eram os dois corpos, apenas eles. Nada além de dois corpos. Os outros corpos, eram corpos. Ninguém falava nada. Todos com os ouvidos e olhos abertos para entender, captar, o real presente.

Ao final, os dois corpos se tocaram pela boca. Tocaram-se lenta e intesamente. Sem mistério algum, os outros corpos aplaudiram o espetáculo. Os corpos então, todos eles, se desperdiçaram em busca de completar aquele vazio.

Depois de alguns instantes, corpos se encontraram e, ao fim do momento, vários corpos formavam apenas um. Então, os corpos voltaram a ser apenas um, separados. E assim terminou o pedaço de tempo.